GAMA 3X0 PARANAVAÍ: 15 anos da partida que durou um mês

18/02/2019

O Gama fez, em 2004, a melhor campanha de sua história na Copa do Brasil. A empreitada, encerrada nas oitavas de final, contou com uma classificação heroica em cima do Botafogo, em pleno Maracanã, além de um extraordinário empate em 4 a 4, também diante dos cariocas. Porém, antes de chegar a esse duelo, o alviverde teve de encarar uma guerra judicial emocionante contra o Paranavaí, que durou mais de um mês.

 

A Copa do Brasil de 2004

Naquele ano, o Gama, então campeão candango, enfrentou o Paranavaí/PR na primeira fase da competição nacional. No dia 4 de fevereiro de 2004, o Gama foi até o interior do Paraná para o primeiro jogo. Em campo, uma partida difícil no péssimo gramado do estádio Waldemiro Wagner. Com mais areia do que grama, nenhuma das equipes conseguiu marcar e o duelo terminou em 0 a 0.

Após o jogo, os paranaenses perceberam que o atacante Allan, do Gama, não estava inscrito no Boletim Informativo Diário (BID) e apresentou uma denúncia ao STJD, pedindo a exclusão do alviverde. O atleta em questão, sequer entrou em campo, ficando apenas no banco de reservas.

 

O começo da batalha jurídica

O advogado Fábio Franco, do clube paranaense, usou o Artigo 214, do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), para basear a denúncia. Naquela época, era válido o CBJD aprovado em 2003, onde se previa pena ao clube que “incluir atleta que não tenha condição legal de participar da partida, prova ou equivalente”.

E o que seria “incluir atleta que não tenha condição legal de participar da partida, prova ou equivalente”? Apenas o simples fato dele constar na súmula da partida ou o ato dele entrar em campo, seja como titular ou substituto? Essa foi uma das motivações para as seguidas alterações que levaram ao consenso do que é hoje o Artigo 214. E, naquele ano, foi a brecha usada pelo departamento jurídico do Gama, em sua defesa.

O julgamento do caso no STJD foi marcado para o dia 18 de fevereiro de 2004, mesmo dia em que seria realizado a partida de volta, no estádio Bezerrão.

 

O duelo em campo

Chegou o dia da batalha dupla diante do Paranavaí-PR. Uma hora e meia antes do começo da partida, no estádio Bezerrão, a 3ª Comissão Disciplinar do STJD concluiu que o alviverde era culpado por ter incluído Allan na súmula e decidiu punir o clube com a exclusão do campeonato e multa de R$ 5 mil. Dos cinco auditores, quatro compareceram e foram unânimes na decisão.Com a decisão do tribunal, a partida teve um clima de amistoso. Apenas 378 pagantes compareceram ao estádio.

Os jogadores alviverdes não desanimaram e partiram para cima dos paranaenses. Aos 41 minutos, o zagueiro Emerson acertou um belo chute, marcando um golaço. Na volta do intervalo, o Gama continuou sufocando e ampliou o placar. O atacante Victor Santana aumentou o marcador logo aos cinco minutos e, aos 23, o lateral esquerdo Bobby cruzou despretensiosamente e o goleiro paranaense engoliu um frangaço.

Ao final da partida, os jogadores foram aplaudidos, se cumprimentaram e agradeceram o apoio dos corajosos torcedores. Desolados, eles não acreditavam mais que passariam de fase. Aquela partida ainda não tinha acabado.

 

Duelo de liminares; Bezerrão lacrado

No dia 3 de março de 2004, o alviverde conseguiu um efeito suspensivo. O presidente do STJD, Luiz Zveiter, proibiu a CBF de marcar os jogos da segunda fase entre Paranavaí-PR e Botafogo até que houvesse um julgamento final, marcado para o dia 11 de março.

No dia 11 de março de 2004, o Gama deu outra goleada no Paranavaí. Em segunda e última instância, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) deu parecer favorável ao alviverde por 6 a 1.

A briga ainda não tinha acabado. O Procon de Paranavaí buscou a Justiça comum em favor do clube paranaense, conseguindo uma liminar na 2ª Vara Cível da cidade. Na decisão, ficou estipulado que a primeira partida da segunda fase seria disputada entre Paranavaí e Botafogo, no dia 24 de março de 2004, na cidade de Paranavaí.

O Gama, “na encolha”, contra-atacou rapidamente. Wagner Marques sequer revelou o advogado que ajuizou a ação na 1ª Vara Cível do Rio de Janeiro, na qual a juíza Andréa Quintela concedeu liminar mantendo a partida para o Distrito Federal, no estádio Bezerrão, e o direito à cota de TV da segunda fase (R$ 35 mil líquidos).

No dia 24 de março de 2004, data da partida, o Paranavaí conseguiu nova vitória nos tribunais. A juíza Thereza Figueiredo Barbosa, da 1ª Vara de Precatórias do Distrito Federal, determinou às 14h34 o cumprimento da liminar cedida ao Procon de Paranavaí e exigiu que se lacrasse os portões do Bezerrão.

 

A vitória definitiva

A resposta do alviverde foi correr até a sede da 1ª Vara de Precatórias do DF, no Setor de Rádio e TV Sul, em Brasília, para apresentar a liminar concedida pela 1ª Vara Cível do Rio de Janeiro. Às 18h21, pouco mais de duas horas antes do previsto para começar a partida entre Gama e Botafogo, a juíza Thereza Figueiredo Barbosa atendeu o pedido e determinou o acontecimento do jogo.

Agora era correr para deixar tudo pronto para a partida. Os lacres no estádio Bezerrão foram retirados e os portões abertos às 19h32, menos de uma hora antes do início da partida.

Torcedores que cercavam o Bezerrão, comemoraram o momento da retirada dos lacres. Muitos já estavam com ingressos, outros compraram na hora e se amontoaram nas bilheterias do estádio Bezerrão. Os que haviam desistido, correram para o estádio. Até o final do primeiro tempo ainda tinha fila de torcedores entrando.

Dentro de campo, Gama e Botafogo fizeram um duelo emocionante – assim como toda a batalha judicial anterior a esse confronto. Foram 8 gols, quatro para cada lado. Rodriguinho, Emerson, Goeber e Victor Santana marcaram os gols alviverdes, já os cariocas marcaram com Fernando, Camacho e Alex Alves (duas vezes).

 

Por Gabriel Caetano/Fértil Comunicação